31 de janeiro de 2005

O Choque Arqueológico

Queria ao máximo evitar o tema político neste modesto espaço, mas por força das circunstâncias, faço aqui uma incursão, se me for permitido.
Acontece que quando Durão Barroso andava em campanha eleitoral, antes de ser Primeiro-Ministro, anunciou um “choque fiscal” que iria acabar com todos os problemas do país. Mas parece que não. Não resolveu os problemas do país, tendo no entanto contribuído radicalmente para o “anúncio dos choques” no discurso político.
De facto parece que a moda pegou. Santana Lopes anunciou o “Choque Administrativo”, José Sócrates o “Choque Tecnológico” e, penso que ontem, Paulo Portas, para não ficar atrás, anunciou o “Choque Moral”?!?!?. Aguardamos com expectativa o “choque” do PCP e do Bloco de Esquerda, caso decidam aderir ao movimento. Parece-me que vamos andar de choque em choque e acabar fulminados por electrocussão.
Senão vejamos a minha análise, e que por sinal até deve interessar muito… :).
Santana Lopes padece do mal “errático”, indo por aqui e ali, ao sabor daquilo que melhor parece e amua, pois ama demasiado a sua imagem. José Sócrates, segundo me é dado a perceber, padece do mal “egocêntrico”, pois só se ouve a ele e amua, pois ama demasiado a sua imagem. Paulo Portas padece do mal da “hiper-motivação” que lhe confere um postura ríspida e arrogante e amua, pois ama demasiado a sua imagem. Resta-nos três escolhas, por sinal fora do meu quadrante político: o PCP, meio inanimado na verbalidade de sempre; o Bloco de Esquerda, que parece o único partido político que parece defender alguma coisa e com um projecto coerente; e, finalmente, o “partido de Saramago”, que corresponde ao voto em branco.
Mas em que é que isso contribui para a arqueologia? Trata-se de uma questão de perspectivas futuras, senão vejamos.
  1. É certo que os governos de António Guterres corresponderam aos “anos de ouro” da arqueologia em Portugal. No entanto, o actual P.S. não parece nada para aí virado pois, lido o seu programa de governo, afigura-se-me que as menções à museologia e ao património não passam disso. Restará o investimento no cinema e teatro.
  2. Os governos do P.S.D., pós Guterres, simplesmente erradicariam as palavras Arqueologia e Património, principalmente a primeira, mantendo a muito custo os projectos que já decorriam, assim como o Instituto que tutela a actividade. Cultura para eles resume-se ao cinema e teatro.
  3. Seja qual for o governo eleito, a arqueologia continuará a ser o parente pobre da comunidade científica, pois apenas são contempladas, nos programas de investimento em bolsas de investigação, as ciências “nobres”?!?!?!. Nem o lobbie (palavra feia) do turismo nos vale, pois, ao que parece, a oferta turística resume-se às actividades balneares e a uma área específica do território, cavando cada vez mais o fosso entre o litoral e o interior, não fosse o ministério instalado no Algarve… porque não na Guarda? Castelo Branco? Viseu? Bragança?, já que se trata teoricamente do antípoda. Porque o interior tem, maioritariamente, para oferecer o turismo cultural e não o de recreio. Este é um dos rostos da nossa mentalidade colectiva, que prefere uma boa tosta no areal de uma praia, e é verdade sabe sempre muito bem, mas é incapaz de mudar a rotina e visitar um Museu, por exemplo.
  4. Continuará o poder político a permitir a depredação do património arqueológico em nome de um “desenvolvimento” duvidoso? É que o desenvolvimento deve ser integrado, desenvolvido em todas as áreas, e não apenas sectorialmente, senão não é nada. Custa-me a crer que haja algum arqueólogo que esteja contra a construção de uma via de comunicação, ou de uma infra-estrutura qualquer, ou que não seja apologista do desenvolvimento, principalmente quando se trata de regiões do interior. No entanto permanece a atitude do “destrói e esconde” por parte de muitos, distribuindo-se a culpa por todos nós. Em muitos casos o arqueólogo só avança para o campo apenas com um mês, ou menos, para a obra começar ou a estrada passar sobre determinado sítio, tornando-se assim impossível a salvaguarda mínima de informação. Isto sucede mesmo nos casos em que o projecto já tem anos, pelo que a atitude mais séria e responsável seria o início atempado dos trabalhos. Mas até aqui a mão política é perversa, pois a lei determina que são os donos da obra que pagam à equipa de arqueologia. Ora se eu fosse dono da obra, também não quereria pagar para uns “indivíduos” andarem a desenterrar “coisas”, que até poderiam ser valiosas, mas vão para o Estado e não para mim. “Se pago tenho direito a ficar com elas!”. O mesmo seria comprar um automóvel para o vizinho… não? Mais uma vez o reflexo da nossa mentalidade colectiva, pois “deixa-se rolar... pode ser que não seja necessário…”.
Não digo isto na perspectiva do “bota abaixo”, mas sim na expectativa que estes assuntos se discutam. E é verdade que o são no seio da comunidade arqueológica, e certamente muitos têm boas propostas a fazer… mas quem nos ouve? Encontramo-nos, em Portugal, assim tão em risco como profissão, ou como ciência, que o melhor é não causar grandes ondas? Não sei, sou ainda muito novo para saber essas coisas, é verdade! Não deveríamos, ainda mais e cada vez mais, discutir estes assuntos até que nos ouçam? Recorrer a todos os meios dignos para nos afirmarmos como classe profissional? Não nos deveríamos unir em causas comuns?
Não sei, ainda sou muito novo para saber, mas gostava de viver o dia em que o arqueólogo fosse respeitado como o é o engenheiro, o arquitecto, o biólogo… mas isso requer união… será que temos força? Será que vamos sobreviver ao interesse político??

27 de janeiro de 2005

Biblioteca Nacional

Muito brevemente, aponto aqui um bom exemplo da utilização da novas tecnologias em benefício do conhecimento do passado; A Biblioteca Nacional. Evidentemente que os conteúdos disponíveis são limitados e resumem-se a um conjunto de obras marcantes da história literária de Portugal. No entanto vale a pena passar os olhos. Para quem ainda não conhecia, aqui ficam as ligações.

Boas leituras!

24 de janeiro de 2005

Estação Arqueológica do Outeiro de Castro

Recebi do meu amigo João Machado (O Arqueólogo Dinâmico), um mail a anunciar a apresentação dos primeiros resultados e achados descobertos na Estação Arqueológica do Outeiro de Castro, no lugar da Bóca, em S. Cosme de Vale, Vila Nova de Famalicão, através da realização de uma exposição, patente entre 28 de Janeiro e 14 de Fevereiro. Esta exposição será inaugurada no próximo dia 28 de Janeiro pelas 21h30m, e contará com uma conferência sobre os castros da região pelo Prof. Doutor Armando Coelho Ferreira da Silva. O momento será também aproveitado para a apresentação pública de um CD–ROM informativo sobre os resultados das escavações arqueológicas efectuadas no Outeiro de Castro da Bóca. Bem hajam!

22 de janeiro de 2005

As Amoras

O meu país sabe as amoras bravas no verão. Ninguém ignora que não é grande, nem inteligente, nem elegante o meu país, mas tem esta voz doce de quem acorda cedo para cantar nas silvas. Raramente falei do meu país, talvez nem goste dele, mas quando um amigo me traz amoras bravas os seus muros parecem-me brancos, reparo que também no meu país o céu é azul. Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")

Recursos na Web

A Internet é um dos locais onde passo algumas horas na busca de informação digital relacionada com a temática arqueológica. Desperdício de tempo, diram uns. No meu caso acabo por aproveitar esse tempo do melhor modo. É verdade que se encontra muito lixo, basta ir, por exemplo aos "Groups" do MSN ou do Yahoo! para se encontrar todo o tipo de teorias. Desde a construção de pirâmides do Antigo Egípto por seres extraterrestres "utilizando tecnologia rudimentar", à presença romana na Antártida "pois esta nem sempre esteve tão a Sul, junto ao pólo", como se a separação de Pandora tivesse sido ontem. No entanto, filtrando bem os conteúdos acabamos por encontrar matérias interessantes e importantes. Vamos ver alguns exemplos.
01. Internet Medieval SourceBook 02. Traianvs 03. Fieldwork Guide: Institute of Archaeology UCL 04. Copper Minning - University of Nevada 05. Internet, el Conocimiento Distribuido y la Resolución del Problema Arqueologico 06. Tesis Doctorales en Red 07. Technology and Military Policy in Medieval England, c.1250-1350 08. The Labyrinth 09. Conímbriga 10. Conímbriga - Portugal Virtual Tour... 11. Instituto Português de Arqueologia
Sendo estes apenas alguns exemplos, em futuros "posts" colocarei mais. Evidentemente que estes recursos não substituem uma boa pesquisa bibliográfica numa biblioteca. No entanto são fonte de novas ideias, outras prespectivas.

A Inauguração

Pois, cá estamos a inaugurar "O Caco". Porquê caco, não sei, ocorreu-me assim de repente, mas sugiro algumas razões acerca do "caco"... agradeçam ao "Dicionário Universal da Língua Portuguesa" da Texto Editora, senão não tinha nada para vos dizer acerca disso.
"Caco: (Lat. caccabu?), s.m. pedaço de louça, telha ou vidro; qualquer estilhaço; objecto velho, escangalhado e sem valor; (fig.) pessoa idosa e sem préstimo; (Bras.) pós de tabaco torrado; (Pesc.) pequeno discóide de barro cozido, com dois furos, para substituír os fundos como fundeadores das redes fixas; (pop.) juízo."
E assim é, pois o que aqui se vai falar é de pedaços de louça, telha ou vidro, de objectos velhos e escangalhados, de pessoas muito, mas mesmo muito idosas, mas de grande préstimo. Não fosse a sua idade e o seu préstimo, ainda andavamos como o antepassado de Gonçalo Ramires, filho da grande casa de Ramires, na ilustre obra de Eça de Queiroz:
"(...) E à beira da água limosa, entre os canaviais, um homem monstruoso, peludo como uma fera, agachado no lodo, partia a rijos golpes, com um machado de pedra, postas de carne humana. Era um Ramires." in "A Ilustre Casa de Ramires", Eça de Queiroz, Edição Livros do Brasil, Lisboa, p. 217
Mas, como se diz "para a frente é que é caminho", para a frente vamos. O que acontece que hoje em dia vamos em frente, é verdade, mas cegos, sem conhecimento do caminho percorrido até agora, na mais perfeita ignorância do mundo antigo e do mundo actual... às cegas... sem ver... ou sem querer ver, cegos de olhos cristalinos. Até já!